Dor de cabeça e problemas na visão
Categoria: Condições e Doenças
Recentemente uma reportagem do Jornal Nacional, destacou um cenário alarmante sobre a automedicação no Brasil: pacientes que sofrem com dores de cabeça (cefaleias) crônicas recorrem frequentemente ao uso indiscriminado de analgésicos e anti-inflamatórios, agravando quadros como enxaquecas e até provocando complicações mais graves, como hepatite medicamentosa. Segundo a reportagem, com base em dados recentes do Ministério da Saúde, houve um crescimento significativo no número de atendimentos no SUS relacionados à enxaqueca, refletindo tanto um aumento na conscientização quanto na gravidade dos casos decorrentes do mau uso de medicamentos.
Essa situação levanta um alerta importante para a saúde pública: a automedicação não só mascara diagnósticos essenciais como pode também intensificar o sofrimento do paciente. Na prática clínica neuro-oftalmológica, observamos frequentemente pacientes que, antes de buscarem orientação especializada, passaram muito tempo tratando de maneira incorreta sintomas que podem estar relacionados à visão.
De fato, distúrbios visuais frequentemente estão associados a dores de cabeça persistentes, sendo causas importantes e pouco reconhecidas dessas cefaleias. Desde alterações refracionais, como miopia e hipermetropia, até condições bem graves como glaucoma ou hipertensão intracraniana idiopática, muitos problemas oftalmológicos podem se manifestar inicialmente como dores de cabeça. O paciente, inocente, desprovido muitas vezes de acesso à saúde, frequentemente recorre ao uso inadequado (e por vezes excessivo) de analgésicos, sem perceber que está adiando seu diagnóstico e provavelmente aumentando a gravidade do seu quadro.
Dessa forma, é imprescindível conscientizar a população sobre a relevância da avaliação oftalmológica especializada em casos de cefaleias frequentes ou atípicas, destacando especialmente as causas oftalmológicas dessas dores. A identificação precoce de problemas visuais relacionados à dor de cabeça é um passo essencial para um diagnóstico correto e um tratamento efetivo, evitando o uso excessivo e inadequado de medicamentos. Assim, aqui em nossa clínica, com uma boa conversa com o paciente e com um exame oftalmológico completo procuramos ofertar melhora na qualidade, não só visual, mas de vida aos pacientes. Vamos esclarecer a relação da visão com as dores de cabeça,
Relação entre dor de cabeça e problemas visuais: anatomia simplificada
Para compreender melhor a conexão entre cefaleias e problemas oftalmológicos, é fundamental conhecer algumas estruturas anatômicas básicas envolvidas. A dor de cabeça pode estar diretamente relacionada à irritação ou estimulação inadequada de estruturas sensíveis próximas aos olhos, especialmente o nervo trigêmeo, responsável pela transmissão das sensações faciais, incluindo a área ocular.
Quando há problemas oculares, como erros refrativos (miopia, hipermetropia e astigmatismo), o esforço contínuo para manter o foco visual pode levar a uma sobrecarga dos músculos oculares e das estruturas ao redor, causando o que chamamos de astenopia ou cansaço visual. Essa condição frequentemente gera dor localizada na região frontal e periocular, podendo irradiar-se para outras áreas da cabeça e se manifestar como uma cefaleia tensional.
Além disso, condições mais sérias como o glaucoma agudo, caracterizado pelo aumento súbito da pressão intraocular, também podem resultar em dor ocular intensa acompanhada de cefaleia severa, náuseas e até alterações visuais. A hipertensão intracraniana idiopática, condição que eleva a pressão dentro do crânio, pode causar dores de cabeça persistentes associadas a alterações visuais transitórias ou permanentes.
Desta forma, a avaliação anatômica e funcional do sistema visual, realizada por um especialista em oftalmologia, é crucial para o diagnóstico diferencial e manejo apropriado desses quadros clínicos.
Pra quem só tem martelo, todo problema é prego
Por outro lado, também existem situações que dores de cabeça são falsamente atribuídas aos problemas visuais. E isso pode representar um risco, inclusive de vida! Veja, nem toda dor de cabeça (mesmo as que são referidas como 'atrás dos olhos') significa que a pessoa necessita de óculos. Embora erros refrativos, como miopia e astigmatismo, possam sim causar sintomas (como dores de cabeça) relacionados à prescrição dos óculos, nem todas as dores de cabeça têm essa origem.
Tudo bem que hoje em dia utilizamos MUITO nossos dispositivos eletrônicos. Porém, é equivocado associar automaticamente dores de cabeça ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos. Embora o uso prolongado de telas possa causar astenopia (sintomas relacionados ao esforço visual), resultando em cefaleias menos intensas e transitórias, esse fator sozinho raramente explica quadros intensos, incapacitantes, graves ou crônicos. Condições como enxaqueca e cefaleia em salvas, por exemplo, possuem mecanismos complexos e multifatoriais e não são causadas exclusivamente pelo uso de telas.
Por outro lado, é verdade que problemas oftalmológicos como glaucoma ou insuficiência de convergência podem provocar cefaleias significativas, muitas vezes desconsideradas por falta de conhecimento de alguém sem a formação ou que não seja especialista. Portanto, esclarecer esses pontos (tanto para o público geral quanto para os profissionais de saúde) sobre a importância de uma avaliação oftalmológica nesses pacientes é fundamental para garantir diagnósticos precisos e, consequentemente, tratamentos mais eficazes.
Por que a avaliação oftalmológica é essencial nas cefaleias recorrentes?
A avaliação oftalmológica especializada, com oftalmologista (parece redundância, mas é importante ressaltar), e em algumas vezes com exames complementares, desempenha papel de extrema importância no diagnóstico diferencial de cefaleias recorrentes. Além dos erros refrativos comuns, como miopia e hipermetropia, condições oftalmológicas sérias podem manifestar-se primeiramente como dores de cabeça, exigindo identificação precisa e tratamento rápido e direcionado. O glaucoma agudo (ou uma crise de fechamento angular), por exemplo, pode causar uma dor de cabeça muito intensa com risco de cegueira irreversível rápido (horas / dias), e necessita de intervenção rápida para preservar a visão. Porém, condições menos súbitas também podem gerar danos visuais se não diagnosticadas.
Diagnósticos como insuficiência de convergência ou espasmo acomodativo, frequentemente associadas ao uso prolongado de telas, conforme já comentado, também podem causar cefaleias mais frequentes, principalmente após esforços visuais contínuos (e aqui vale um alerta aos programadores, designers, operadores de telemarketing, contadores, entre muitos profissionais). Além disso, uma correta avaliação oftalmológica pode identificar alterações iniciais da hipertensão intracraniana idiopática, evitando complicações maiores, como perda visual permanente.
Conclusões
Reconhecer a relação entre problemas oftalmológicos e dores de cabeça é essencial para o diagnóstico precoce e manejo adequado desses casos. Reforçar a importância de avaliações oftalmológicas periódicas em pacientes com cefaleias recorrentes pode reduzir o impacto negativo da automedicação, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Nossa dica é:
- Teve dor de cabeça intensa ou incapacitante? Procure um pronto socorro! Não deixe para depois!
- Descartadas as causas de risco de vida, com a melhora do quadro, agende sua consulta aqui na dr. bemtevi!
- Se possível, faça um diário (tabela) de suas dores (horário de início, duração, intensidade, fatores de melhora, fatores de piora, fatores desencadeantes, e outros detalhes associados). Isso facilitará a vida do médico centralizador do seu cuidado (idealmente seu neurologista) que, muito provavelmente, irá pedir uma avaliação complementar de um oftalmologista!
Não deixe que a sua dor de cabeça limite seu mundo (aliás, ninguém merece viver com dor de cabeça!). Agende uma consulta e descubra a melhor opção para seus olhos. Sua visão merece o melhor cuidado.
Referências
- Tomsak, R. L. (1991). Ophthalmologic aspects of headache. Medical Clinics of North America, 75(3), 693-706.
- Mollan, S. P., Virdee, J. S., Bilton, E. J., Thaller, M., Krishan, A., & Sinclair, A. J. (2021). Headache for ophthalmologists: current advances in headache understanding and management. Eye, 35(6), 1574-1586.
- https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/07/08/consumo-excessivo-de-remedios-para-dor-de-cabeca-torna-enxaquecas-mais-dolorosas-entenda-por-que.ghtml
- Nguyen, E., Inger, H., Jordan, C., & Rogers, D. (2021, December). Ocular causes for headache. In Seminars in Pediatric Neurology (Vol. 40, p. 100925). WB Saunders.
- Robbins, M. S. (2021). Diagnosis and management of headache: a review. Jama, 325(18), 1874-1885.
- Nem toda dor de cabeça é enxaqueca ou “tensão” – Muitas cefaleias têm origem ocular, como erros refrativos, glaucoma ou hipertensão intracraniana. Automedicar-se pode atrasar o diagnóstico correto.
- Problemas de visão podem causar dor de cabeça – Esforço visual (como em miopia ou uso prolongado de telas) pode causar astenopia e cefaleias recorrentes, especialmente na região frontal e ocular.
- Nem toda dor de cabeça vem da visão – Atribuir qualquer dor “atrás dos olhos” aos óculos é perigoso. Enxaqueca e cefaleia em salvas têm causas neurológicas e precisam de avaliação especializada.
- Avaliação oftalmológica é crucial no diagnóstico – Em cefaleias frequentes ou atípicas, investigar causas oculares com oftalmologista e exames complementares é essencial.
- Cuidados simples fazem diferença – Evitar automedicação, registrar as dores e buscar avaliação médica especializada são passos importantes para um tratamento adequado.
Médica Oftalmologista | Especialista em Glaucoma e Neuroftalmologia
CRM-SP 176.630 | RQE 87.590
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